segunda-feira, julho 11, 2005

Puk

Não gosto de terroristas. O que lhes falta é serem corrompidos pelo melhor que a nossa sociedade ocidental tem: luxo, sexo, álcool, decadência, indolência, sobranceria, indiferença. Depois lógo veríamos se ainda lhes apeteceria rebentar bombas...

Padjé (Vol. 06)

Disappear Here

P.L.A.Y.W.I.T.H.M.E.

Crash (David Cronenbergh) + Lost Highway (David Lynch) + Nowhere (Gregg Araki) + The Rules of Attraction (Roger Avary) + Irreversible (Gaspar Noe) + The Dreamers (Bernardo Bertolucci) + My Own Private Idaho (Gus Van Sant) = ?

sexta-feira, julho 08, 2005

Vampyr

Gosto do sabor do sangue: quente e doce, aveludado. Só é pena não ser azul...

Automatic Lover

Ok. It's late. I'm just staring at nothing or what I imagine is nothing until I'm finally moved to say, "As a general rule you shouldn't expect too much from people, darling," and then I kiss you on the cheek."You can't make me cry", you say blinking into the dark space in front of us-

"I am so tired of looking at that empty hole that's supposed to be your face-"

"A smart suit," you sigh. "Being buff. A cool haircut. Worrying about whether people think you're famous enough or cool enough or in good enough shape or . . . or whatever." You sigh, give up, stare at the ceiling. "These are not signs of wisdom, darling," you say. "This is the bad planet."

I can imagine that my virtual absence of humanity fills you with some sort of mind-bending horror. I can see it in your eyes. Tough. Rock'n'roll. It's too late now.

"I think that tonight will be my last...my last night. Okay, baby? I don't think I can do this anymore. I'm just so sick of feeling so...sad all the time and I can't...". I look at you and don't smile. "Fuck you-", I hear myself saying. Silence. Depeche Mode play "The Dead Of Night" too loud, somewhere. I smash your head in with the prized baseball bat. "You look great". I smile. "But now you're dead". Done. I check my watch. Guess i'm hungry. Good night, baby. Out.

Bret Easton Ellis Remixed. Shake it.

Padjé (Vol. 05)

This Is Not An Exit!

Padjé (Vol. 04)

Irresponsible. Intolerable. Yeah. Rock'n'roll.

Padjé (Vol. 03)

Sexy. Demented. Psychedelic. Just sensational.

Padjé (Vol. 02)

Explore the possibilities.

Padjé (Vol. 01)

Sex. Violence. Whatever.

Original Soundtrack Vol. 01

01. Goldfrapp: Strict Machine
02. Fischerspooner: Emerge
03. Orbital: Frenetic
04. Madonna: Nobody Knows Me
05. Erasure: Ebb Tide
06. George Michael: Shoot The Dog
07. Erlend Öye: Sudden Rush
08. Jay Jay Johanson: Automatic Lover
09. Kosheen: Hungry
10. Primal Scream: Miss Lucifer
11. Curve: Dirty High
12. Depeche Mode: The Dead Of Night
13. Playgroup: Bring It On
14. U2: Salome (Zooromancer Mix)
15. Goldfrapp: Train
16. Kosheen: Empty Skies
17. Playgroup: Make It Happen
18. Curve: Switchback

Electropoperfect, n'est pas?

Angela Carter vs. David Lynch vs. Derek Jarman vs. Gregg Araki vs. Dennis Cooper ad infinitum...

Vol. 02...?

quinta-feira, julho 07, 2005

Grafitti

Parede escrita perto de Melides:
"Deus é grande, mas o meu pisso é maior!"
Amen!

Marquis of Sadness

"They've announced the new writer in residence
They've announced his name
But we'll call him Marquis of Sadness
The professors say he's sad
He's the leading light of the Bitterati
But we will invite him to our party
I'll get along quite nicely in this university
In my little office with its sofa and its key
They'll call on me at all hours for gin and sympathy
Bringing bad but intimate poetry
They've announced the new writer in residence
And the cleverest girls in the arts faculty
Must read poetry in his presence
And if our poems are bad
They'll still be evidence
Of our desire to make him desire us
I'll get along quite nicely in this university
In my little office with its sofa and its key
They'll call on me at all hours for gin and sympathy
Bringing bad but intimate poetry
Bad but intimate poetry
They've announced the new writer in residence
We've read all his books
And now we're longing for his presence
And the more he tells us we're bad
It might sound strange but in our madness
The more we'll fall in love with the Marquis of Sadness
I'll get along quite nicely in this university
In my little office with its sofa and its key
They'll call on me at all hours for gin and sympathy
Bringing bad but intimate poetry
Bad but intimate poetry(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
Bad but intimate(Marquis of Sadness)
(Marquis of Sadness)"

Outra das coisas que faz parte da vida do senhor Marquês é um senhor inglês chamado Nicholas Currie aka Momus. Vejam porquê pelo transcrito acima.
The Marquis of Sadness... Não é perfeito?

Aquela Noite!

"Era a noite da loucura,
Da sedução, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder.
Os felizes... e ai!, são tantos!...
- Eu por tantos os contava!
Eu, que o sinal dos meus prantos
Do aflito rosto lavava -
Os felizes presunçosos
Iam nos coches ruidosos
Correndo aos salões doirados
De mil fogos alumiados,
Donde em torrentes saía
A clamorosa harmonia
Que a festa, ao prazer tangia."

AQUELA NOITE!
ALMEIDA GARRETT

E como tem razão, o senhor Garrett!

quarta-feira, julho 06, 2005

Kiss Goodbye

No meio de tudo isto, de toda a pose, de toda a infelicidade, de tudo o que achamos faltar-nos, uma boa notícia: o Penetrador Gótico apaixonou-se e vai atrás da sua felicidade. Para Madrid. Seja. É uma pena que se vá porque almas assim queremos tê-las junto de nós. Fazem falta. O negrume daquela alma só é compensado por toda a luz que sai bem lá de dentro. Opáááá! Mas está bem. Vai e que tudo seja como mereces. A felicidade, a loucura, os braços de manhã, o saber que vai estar sempre ali alguém para dizer "Estou contigo". Happiness is an option, já diziam os Pet Shop Boys. E é sempre bom ver alguém de quem gostamos embarcar numa amor novo, cheio de promessa e futuros radiosos. Cá estaremos para ver. Olé!

Cold

"Dying is easy, it's living that scares me to death".
Annie Lennox
1992

terça-feira, julho 05, 2005

Crash!

Está uma flor esborrachada no chão...

Parfois

Foi a primeira vez que

Ainda não sei como

Não me parece que

Tudo é relativo

Mas sinto como se faltasse algo em mim

Como sempre

Hey, it's only rock'n'roll

Por fim...

Estou pronto para mais um mergulho em dourado profundo.

Auto gratificação

O senhor Marquês apresenta-se ao mundo em todo o seu esplendor, com as coisas que o fazem feliz.
A saber:
. O prazer da minha vergonha privada;
. O estilo como vida e morte;
. A música de Michael Nyman;
. Uma salada sem tempero;
. Uma peça de fruta amarga;
. Uma garrafa de champanhe como fonte de vida;
. Um Bentley Continental GT vermelho escuro;
. A música de Mychael Danna;
. Um livro de EM Forster;
. Um filme de James Ivory;
. A forma antes da função;
. Um Banho de dourado;
. Toda a música barroca:
. Uma refeição russa;
. Chocolate, no particular e no abstracto;
. Uma pronúncia inglesa;
. Um chá de cereja negra do Japão;
. Uma tarde à beira mar a olhar o mar azul;
. A expressão de langor de uma juventude perdida;
. Carne jovem e fresca, inconsciente do seu poder;
. Os risos dos amigos;
. O talento de quem se gosta, mesmo que seja impúdico;
. Pés e partes do corpo desgarradas, sem nunca formar um todo;
. 6FU;
. O álbum “Behaviour” dos Pet shop Boys;
. Paisagens em Itália;
. O deserto;
. O humor britânico, quanto mais negro e assassino, melhor.
. Monty Python, et pour cause;
. Estrangeirismos;
. A Monarquia;
. Pedantismo, pretensão e água benta;
. Um copo de leite fresco;
. Um Appletini;
. A noção de que tudo vale a pena, se tiver bom aspecto;
. O cheiro de uma pele fresca;
. Ver; Tudo; Com atenção;
. Escrever sem pontuação;
. Masturbação;
. Carrinhas pick-up;
. Chinelas hawaianas;
. Boxers de seda;
. O cheiro da terra molhada após uma chuvada;
. As cartas da Maya;
. O simulacro do desejo;
. Uma gargalhada da Cláudia Jardim;
. Uma peça dos Pragas;
. Nunca saber o que vai acontecer a seguir;
. Um Rover 75 british racing green;
. O ridículo; em especial o nosso próprio...

segunda-feira, julho 04, 2005

Dixit

Toda a moralidade é vaidade!

sexta-feira, julho 01, 2005

6FU

Frase da semana:

"Ias a passar e caíste na vagina dela, foi?"

Assim mesmo. Nem é necessário contextualizar. Abençoado Alan Ball. Momentos religiosos todas as segundas feiras.

segunda-feira, junho 27, 2005

Vervaceous

Hoje apetecia-me escrever sobre palavras, o seu significado, a sua importância et al., mas o meu espírito está murcho. Por isso, socorro-me das palavras de Tina Weymouth, via Tom Tom Club, "Wordy Rappinghood":

"What are words worth? What are words worth? - words
Words in papers, words in books
Words on tv, words for crooks
Words of comfort, words of peace
Words to make the fighting cease
Words to tell you what to do
Words are working hard for you
Eat your words but don’t go hungry
Words have always nearly hung me
What are words worth? What are words worth? - words
Words of nuance, words of skill
And words of romance are a thril
lWords are stupid, words are fun
Words can put you on the run
Mots precieux, mots senseux,
Mots qui disent la vérité? mots maudits, mots mentis,
Mots qui manquent le fruit d’esprit
What are words worth? What are words worth? - words
Its a rap race, with a fast pace
Concrete words, abstract words
Crazy words and lying words
Hazy words and dying words
Words of faith and tell me straight
Rare words and swear words
Good words and bad words
What are words worth? What are words worth? - words
Words can make you pay and pay
Four-letter words I cannot say
Panty, toilet, dirty devil
Words are trouble, words are subtle
Words of anger, words of hate
Words over here, words out there
In the air and everywhere
Words of wisdom, words of strife
Words that write the book I like
Words won’t find no right solution
To the planet earth’s pollution
Say the right word, make a million
Words are like a certain person
Who can’t say what they mean
Don’t mean what they say
With a rap rap here and a rap rap there
Here a rap, there a rap
Everywhere a rap rap
Rap it up for the common good
Let us enlist the neighbourhood
It’s okay, I’ve overstood
This is a wordy rappinghood, okay, bye.
What are words worth? What are words worth? - words
What are words worth? What are words worth? - words
He’ll stop ... don’t stop ... stop.

Não conseguiria fazer melhor.

Tenho dito.

"Better days will surely come our way"
Massive Attack, "Better Days", Protection 1994

É tão triste perder a Musa.

sexta-feira, junho 24, 2005

Um quarto cheio de silêncio

Ok. Tudo isto é uma espécie de discussão contínua comigo mesmo: Porque é que deveria, ou não, fazer tudo aquilo com que fantasio? Gostava de conseguir perceber isso por mim mesmo e não ter que me apoiar nas leis morais, legais e religiosas que regulam o que se deve e não deve fazer. Os certos e os errados. No fundo, não acredito numa ideia de uma verdade colectiva. Suponho que, filosoficamente, sou um anarquista. Acredito que todos temos o que precisamos dentro de nós para tomarmos as decisões certas. De qualquer modo, e apesar de tudo, já tenho menos medo de enlouquecer, de perder a cabeça e fazer um qualquer disparate a mim próprio, ou aos outros, mas dificilmente me posso considerar livre. Mas já é um princípio.

The Gift

"Darling don't you understand
I feel so ill at ease
The room is full of silence and it's getting hard to breathe
Take this guilted cage of pain and set me free
Take this overcoat of shame
It never did belong to me
It never did belong to me
I need to go outside
I need to leave the smoke
'cause I can't go on living in this same sick joke
It seems our lives have taken on a different kind of twist
Now that you have given me the perfect gift
You have given me the gift
For we have fallen from our shelves
To face the truth about ourselves
And we have tumbled from our trees
Tumbled from our trees
And I can almost...
I can almost feel the rain falling
Don't you know it feels so good
So let's go out into the rain again
Just like we said we always would"
The Gift
Annie Lennox
Diva 1992
Não sei explicar. É uma daquelas coisas que se mete na pele. É uma canção, mas mais que isso. É uma suspensão de partículas sonoras que flutua, sem peso, sem gravidade. Um esqueleto sonoro. Das coisas mais belas que já ouvi. Não sei explicar porquê. E é aquela voz... You have given me the gift.

quinta-feira, junho 23, 2005

Certitude

À falta de palavras minhas para exprimir o que me vai na alma (sim, ainda por cá anda...), socorro-me desse grande homem, cuja Musa é toda-poderosa: Neil Hannon, pois então...
A saber:
"Sometimes at night the darkness and silence weighs on me. Peace frightens me. Perhaps I fear it most of all. I feel it's only a façade, hiding the face of hell. I think of what's in store for my children tomorrow; "The world will be wonderful", they say; but from whose viewpoint? We need to live in a state of suspended animation, like a work of art; in a state of enchantment... detached. Detached."

The Certainty of Chance
The Divine Comedy
Fin de Siècle

I rest my case...

Detached.

quarta-feira, junho 22, 2005

Espumas e dias

A tua boca serve para me dizer que nada do que eu possa fazer por ti servirá para alguma coisa. Prefiro assim. Iliba-me da responsabilidade de tentar agradar. Não quero. Quero ser um monstro de egoísmo, absoluto mar negro de auto comiseração. Quero chafurdar num mar de lama fétida para me libertar de toda a merda que me rodeia e que faz tanto parte de mim que até me assusta. Vários pensamentos negros assombram-me. O descontrolo entre aquilo que faço e aquilo que sinto é tão grande que me sinto tonto. Dubnobasswithmyheadman. Poderia perfeitamente enlouquecer, branda e docemente. As hélices são brandas e já pararam de girar.

"Love needs its martyrs
needs its sacrifices
They live for their beauty
and pay for their vices
love will be the death of
my lonely soul brothers
but their spirits shall live on in
the hearts of all lovers"

The Love Thieves
Depeche Mode
Ultra 1997

terça-feira, junho 14, 2005

Sissinghurst

É agora!
Nada mais.
Pele ardente.
Olhos flamejantes.
Sorriso torcido.
Alma negra.
Punhos cerrados.
Sangue mau.
Uma pomba muito azul.
Uma pequena verdade.
Tu que me tiveste.
A lembrança diluída.
As águas pasmadas.
Uma meia noite pausada.
A vida acorda.
Um beijo nervoso e lento.
O homem cede ao desejo
como a nuvem cede ao vento.

Thurston

Grita o teu amor
as estrelas estão negras
a igreja é doce
a minha pele está a arder

Guia a minha mão, Senhor...

... até dentro de ti, meu mundo, minha dor, minha loucura.

1000 espelhos

Singela homenagem a Eugénio de Andrade, com tema caro ao senhor Marquês:

"Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca."

Respiro o teu corpo
Eugénio de Andrade.

segunda-feira, junho 13, 2005

Magnificat

O que é real? O teu olhar azul no meio das luzes infernais daquele clube surreal onde um mar de gente se abanava freneticamente como se as suas vidas dependessem disso? Ou os teus lábios na minha orelha a dizerem-me "quero-te a ti...". O que é a realidade? Tu a flutuares no meio da multidão ululante, como se não houvesse gravidade, a desfazeres-te em luz? Mas os teus olhos sempre cravados nos meus disseram-me: a realidade somos nós.

Pode ser.

Podemos dormir para sempre.

Tweet

É para que saibas: quero rebentar contigo, deixar-te em estilhaços, nada mais que um monte fumegante e pestilento de sangue, suor e lágrimas.

Quero que morras às minhas mãos, quero foder-te até que invoques o nome do Senhor, mesmo que seja em vão; quero que sintas que a tua vida está nas minhas mãos, no delírio da minha mente, naquele momento de descontrolo que eu possa ter... ou não.

Quero que tenhas medo quando te vieres por entre suspiros e gemidos e olhos transidos, como se esse fosse o teu último momento nesta vida.

Quero foder-te no altar de uma igreja, debaixo da imagem protectora de Cristo, que o esperma seja sagrado, salgado, abençoado nos teus lábios, na tua face, a vida Ela própria.

Só quem te inflige a dor a poderá fazer desaparecer.

Quero a tua carne marcada pelo poder dos meus actos, quando estiver dentro de ti quero que grites, que te sintas a arder, que te pareça que te partes em dois; os fogos que ardem dentro de ti serão depressa apagados.

Quero.

God is a DJ

Todas as mortes são iguais. Mas há mortes que são impolutas, verdadeiras; romanas.

quarta-feira, junho 08, 2005

Verandah Reprise

O espaço entre nós é o limite entre o ser absoluto e a absoluta estupidez de quem acha que sabe alguma coisa...

Não me parece que esteja a fazer sentido.

Gosto do cheiro da carne fresca fremente e dura a torrar ao sol impiedoso deste verão fora de tudo. Gosto do desafio que impõem os jovens ao mundo e das promessas ameaçadoras que fazem. Porque são promessas contra mim, que eu tenho que esmagar e tornar minhas.

Deus cumpre-se através da carne jovem.

E eu cumpro-me através da carne jovem.

Draculae vivit.

A minha mão não é mais do que

Mardemorte

Uma enxurrada de proporções bíblicas, segundo o Paulo. Solução final e absoluta. Negrume em total. Verborreico, tergiversador, retórico, nada reduzido a nada. Os olhos azuis que me perpassam a alma até eu já não ter alma que me valha. Castelos construídos sobre fofas nuvens. Idolos com pés de barro. Filmes do Greenaway. O Paulo entornou água sobre a cabeça e nada mudou. Nem nós. Sinto longe. Fellini 8/8. KLF. What time is love?

Pink panther sweet baby jesus mary mary on your knees bang bang kiss kiss love you to death and stuff over and over the rainbow play your cards well and your eyes are like diamonds in the rough rider syndrome marlboro country braindead spread all over the world baby turn turn until nothing comes to nothing

afronta afrontamento raios parta ovos mole gritos cinzentos esta noite água para jogar sobre mim já que deus não colabora em menos de nada tatatatatatata estás com vontade e medo do chuveiro ahahahahahahahahah.... apanhando do ar e deve sair daí boa coisa louco louco e não é pouco em cima do pelo que nunca é pouco inveja inveja lalalala quando se vai no carro levar nas trombas mais vale um carro em cima de ti toda molhada sem yoga agora tinha que ir dar aula sem papa doce vira ao contrário ahhhhhhhh dá-me que eu vou...

Momentary lapse of reason...

Pérolas

rioja rioja
reverência
Marrocos azul profundo
a água na pedra
a água no betão
a água na areia
a água fumegante

o vento o sal o barco brilhante que se aproxima estás na água meu velho em cima daquela casa branca o azul profundo da andaluzia vermelho amarelo vermelho amarelo carro negro luz vermelha local negro lá longe as muralhas cadeira azul marrocos marrocos hamburgo paris as peças do puzzle estão à espera a água dos barcos negros deslizando barcos brilhantes saindo para o mar e tu a flutuar a flutuar um tipo velho louco no sótão

loucoloucoloucoloucoloucoloucoloucoloucoloucoloucolou

quarto branco quarto solar quarto sombrio noite transmitindo carros através do quarto
estas coisas dançam através do quarto enquanto eu te observo deitado na tua cama

regressando a ti

loucoloucoloucoloucoloucoloucoloucoloucoloucoloucolo

Larham Hill (O mar em volta)

Disseste: Não és nada na minha vida.
Eu disse: A lisonja não te vai levar longe.
Disseste: Sabes o que vejo quando olho para ti?
Eu disse: Mal posso esperar.
Disseste: O que não foste.
Eu disse: O que não fomos.
Disseste: Destruimos tudo.
Eu disse: Tal como dever ser.
Disseste: Apenas merda.
Eu disse: Rock'n'roll.
Disseste: Estás com bom aspecto.
Eu disse: Faço o que posso.
Disseste: Fazes-me lembrar o ontem.
Eu disse: Já passou, ontem.
Disseste: Nada mais.
Eu disse: Tive a certeza. A certeza. Uma vez. Apenas. Foi.
Disseste: ...

terça-feira, junho 07, 2005

Cristo de muletas

Control.
Opal.
Os teus olhos nos meus.
Os teus braços à volta do mundo.
A pele a queimar.
Dizes-me que o mundo é grande.
A tua mão mostra-me o poder.

... morto vivo...
... auto...
... medicamento para os dentes com sabor a mentol...

Doce no inverno.
Doce à chuva.
Agitar bem antes de usar.
Dizes-me,
"Já não me tocas daquela maneira"

Conector: in
Receptor: out
Deixas-me entrar pela porta de trás.

... relaxa...
... é como se estivesse a vomitar...
... toda a noite a dançar...
... deixa-o começar...
... pinga...

Monta-te nos ritmos santificados do comboio da meia-noite para lado nenhum.
Os ritmos santificados.

Doce no inverno.
Doce à chuva.
Agitar bem antes de usar.
Disseste,
"Nunca mais me tocaste como dantes".

(oh não)
Catalisador...

(és um)
Catalisador...

Sinto-me tão sujo
e a luz cega-me os olhos.

Aí vem Cristo de muletas.

... dez cêntimos para atirar ao inferno...
... olha para ele, escondido...
... hã? quem mais-

"Chama-me trampolim molhado,"
disseste-me hoje
mas eu estava demasiado ocupado com a minha cabeça.
Agitar bem antes de usar.
Disseste-me,
"Mas já não me tocas como dantes"
Eu estava demasiado ocupado a ouvir cenas de sexo pelo telefone,
entrando pela porta de trás.

Nos teus calções claros e apertados
a nossa loucura disparou
e dançamos.

... ah, sim, chegaste a entrar...
... diz aos outros que entraste ...
... olha para as tuas fantasias eróticas de pacotilha...
... hã...
... hei...
... grandes pensamentos...
... yeah...

As minhas loucuras vêm do canal seis...
até às falhas de electricidade.

E a luz cega-me os olhos
e eu sinto-me tão sujo.

Hei.
Yeah.
Rock'n'roll.

E a luz cega-me os olhos
e eu sinto-me tão
abandonado pela minha fé.

Aí vem Cristo de muletas.

E aí vem outro deus
(aí vem outro deus)
como um trovão ocre
com um cheiro a açucar
e uma língua de veludo
e voodoo de marca.

Mas eu tenho o sexo pelo telefone para me salvar
do vazio das minhas 501
secas a frio na minha nova religião
com os meus dentes cravados
no centro da minha cabeça.

Mas tenho o canal seis...

Mas tenho o canal seis...

A luz cega-me os olhos
e eu sinto-me tão sujo
(sinto-me tão sujo...)
Aí vem Cristo de muletas
(Cristo de muletas)

Não me deixarei cair na confusão
(na confusão)

Deixaste-me confuso

Não me deixarei cair na confusão
(não serei outro homem)

... sujo sujo sujo...
... segundo arrepio...
... chupando carmins...

Esta pressão de opiniões.

Anima-te.
Ouve os teus olhos, disseste-me tu.
Mas tudo o consegui ver foi a Doris Day
e um satélite multicromático
a desaparecer no metro na baixa
com aquele maníaco psicopata alegre.

e a luz cega-me os olhos

e a luz queima-me os olhos

e tenho sempre o canal seis...

Épico.

quarta-feira, junho 01, 2005

Sluurp!

Vício de boca. Coisas boas para morder e chupar...

Um abaixo

Coisas maravilhosas acerca do novo álbum dos System of a Down, "Mesmerize":

. O título do ano: "This Cocaine makes me feel like i'm on this song"... Genial, não?
. Melhor pregão contra a censura: "My cock is much bigger than yours/My cock can walk right through the door", de "Cigaro"... Palavras para quê?

Me happy...

terça-feira, maio 31, 2005

Ist

Não me arrependo dos corpos que conheci. Das peles, dos cheiros, dos vergões e das vermelhidões, dos espasmos e do sabor da carne quente e ofegante. Gosto dos olhares, dos lábios entreabertos, dos olhos semicerrados, das imprecações, do poder que isso me dá, do saber que ao toque dos meus dedos outro ser é meu e pode chegar aquele momento supremo. Gosto das palavras sincopadas, das asneiras e das hesitações, dos gritos, do descontrolo total que só a entrega de um corpo pode permitir. É como se Deus brotasse das pontas dos dedos. É a realidade alternativa recreada entre os lençóis. Corpos, forças em contínua batalha. Quando os corações se acalmam e as respirações voltam ao normal o que se pode pensar é: cumpriu-se...

sexta-feira, maio 27, 2005

As noites dos teus dias...

... pertencem-me.

W.

"... fat women with horns screaming about how happy they are to be dying..."

quarta-feira, maio 25, 2005

iX

Todo o mistério da nossa vida é apenas um globo de neve comprado numa loja de souvenirs. Um cliché do tamanho do mundo que é tão certo como a morte. Quero um dia da minha vida como um filme de James Ivory.

The coming storm ou a tempestade que vem

Quando é possível que se consiga ver o mundo com outros olhos e com outra percepção do que nos rodeia algo nos diz: "tem cuidado...". Mas, por vezes, o melhor é mesmo deixar ir e gozar o que podemos. O abandono compensa. Dá gozo. Dá elação. É o que temos. Gosto de sentir uma coisa assim de quando em vez... Até a vida corre melhor... Um luxo!

terça-feira, maio 24, 2005

Anymore

O bom porto assim me aparece. Uma miragem.

Bazzarat

Sinto a vida a escorrer de mim lentamente, mas com propósito.

Danço com lágrimas nos olhos

Estou no fim da corda. Farto. Está demasiado calor para me preocupar com tanta merda inútil. Nada já vale nada. Nem eu. Gosto de ver quem ainda consegue ser. Mas são poucos. Não me apetece andar por aí a arrastar-me sem destino. Não tenho idade nem estatuto social para isto, como dizia a outra. Certo. A Paula diz-me que só lhe apetece chorar. Quem me dera. Seria bom. Mas nem isso. Raios! Sem rumo. Cem rumo. Cem nada nada. Water from a vine leaf.

segunda-feira, maio 23, 2005

Missa brevis

Não gosto de estar assim. Não quero estar assim. Sinto-me azedo e incapaz de perdoar. Não há ginástica de perdão que me valha. Apetece-me apenas estar aqui e não ligar. Olho para todos e não consigo mais do que desejar que evaporem. Rapidamente. Permanentemente. Não gosto de ninguém e isso preocupa-me. Sempre o desejei, mas agora penso que não é possível. É um alívio sentir alguma coisa, de quando em vez. Por pouco que seja. Foi isso que me permitiste. E por isso te agradeço. Só é pena que estejas tão longe. Quero a continuidade de que me falou o PG no outro dia. Essa mesmo, sem as síncopes que tanto mal fazem. Essas mesmo. Que raio. Porque é que aquilo que nos faz sentir bem só nos aparece como uma miragem distante, provocadora, mas incapaz de durar... É sempre assim, suponho. Mas não gosto. Não quero. Quero-te aqui ao pé de mim, quero olhar nos teus olhos e ver aquilo que vi da primeira vez. Todas as vezes. Sempre.

We stand or fall...

sexta-feira, maio 20, 2005

Viemos para dançar

Vejo-me preso nas palavras de André Gide: "Cada desejo enriquece-me mais do que a posse sempre falsa do objecto do meu desejo."

Não sei o que fazer...

sexta-feira, maio 13, 2005

Fora de si

Não quero saber. Não me interessa nada. A cobiça manda no mundo e eu cobiço com quantas forças tenho. Gosto. Preciso. Vi quem queria ver, quem tinha sonhado ver. Uma vida toda. Um olhar. Assim mesmo. Lá longe. A distância é o melhor escudo. Lá fora. A saber: no reflexo de um mar de esmeralda, num raio de sol a furar um céu plúmbeo, na beira de um mar que não é o meu. E saber que sim. Em suspenso. Sem rede. Sem futuro. Sem tempo. Fora de si. no meio do mundo. Magari...

quarta-feira, maio 04, 2005

Compostura/Cona sorriso

Isto é tudo um tanto ridículo, naturalmente. Em demasia. Tal como nós, suponho. Nem por isso. Sempre é melhor do que não fazer nada. O que é que podemos fazer com todo o nosso glorioso tempo livre? Andamos de um lado para o outro, quais baratas tontas, tentando atingir algum nível de divertimento. Vale tudo. Sexo, drogas e rock'n'roll. Sem o rock'n'roll, claro. Deus nos livre. Não, nós não. Fazemos o que temos que fazer ao som de qualquer coisa que tenha máquinas. Linhas de baixo sujas, orgânicas, cardíacas. Para que os nossos ouvidos possam sangrar e os nossos cérebros derreter. Desculpas, desculpas. Adoramos cada minuto. Os carros, as drogas, as festas, as roupas, o sexo, o vagabundear com intenção, a falta de objectivos, o afundar, o andar às voltas em circuito fechado. A espiral contínua. Beijos às raparigas, beijos aos rapazes. Cristo morreu pelos nossos pecados e nós achamos que ele não foi muito inteligente por se ter deixado apanhar. Pobre tolo. Por isso é que gostamos tanto dele. Por isso é que o transformamos em gloriosa silagem para os nossos demónios mais negros. Cristo é sempre homem, um tipo bem parecido pregado a uma cruz. Adoramo-lo através dos nossos excessos,vimo-nos em cima dele e ele em cima de nós. Sagrada esporra. AS igrejas são os melhores locais para festas, é algo subterrâneo, a ver com a atmosfera desses sítios. Uma noite qualquer houve uma festa de máscaras, o tema foi a Inquisição. Momentos de loucura. Afinal, o Senhor estava connosco...

terça-feira, maio 03, 2005

Clique/Cona seca

Eu morro. Tu morres. Gary Numan dixit. Este torpor alimenta-se de toda a merda que temos que aturar. Não, isto é apenas uma má desculpa. Rei da tanga. Demasiado maduro. Demónios. As pessoas engravidam. Mas quem poderá querer ter um bebé neste mundo, nesta altura? As pessoas são estranhas. Ninguém quer ser feliz. É muito mais fácil fingir-se de morto e deixar rolar. O mundo lá fora é demasiado louco, mesmo quando pensamos que já sabemos o que queremos da vida. Pichas. Tenham medo das preces atendidas. Fechem o coração. Abram o rabo. É a única forma de sobreviver. Divirtam-se. A vida é uma merda de um festival de t-shirts. Todas as más t-shirts. As mesmo muito más. A linha da beleza. Mas estamos a falar de quê? Quem é que quer saber? Quem é que se interessa? O tempo está bom para os patos. Sentir amor. Feel love. Como se fosse possível. Escrevo-te uma carta: Cara alma fodida, quero meter-te os dentes para dentro a pontapé, esmagar-te o crâneo e dar-te aos porcos. Suponho que te amo. Não consigo parar de pensar em ti. A sério. Teu para sempre.

Riste e mandaste-me ao Inferno. Pois... é sempre assim...

sexta-feira, abril 29, 2005

Palmyra

Tenho saudades de ter saudades de ti. Nada disso importa, claro. Não sei o que se passa ao meu redor. Não há equilíbrio. Nenhum. Estou a trabalhar em abismo profundo, sem nada. Sinto-me como um romancista bloqueado em frente a uma folha branca. É só desespero e suspensão. Obviamente.

terça-feira, abril 26, 2005

Alvíssaras

Alvíssaras, senhores, alvíssaras! O senhor marquês completa hoje 34 gloriosos anos, ao lado direito do Senhor. Há vários caminhos para o reyno dos Céus, sendo que o senhor marquês trilha o mais difícil, mas mais prazeroso. Sticks and stones, como se diz.

sexta-feira, abril 22, 2005

Extremis

Aquela coisa que és tu tarda em ser para mim menos do que uma miragem. São cores a mais.

Armada

Tenho céus azuis dentro da minha cabeça.

quinta-feira, abril 21, 2005

Exigis

Como sempre. Quero estar assim. Penso que não há mais nada que valha a pena. Olhos que vêm muito para além daquilo que eu gostaria que se pudesse ver. A raposa no inverno escondida dos olhares de quem apenas passa. Nada é mais do que aquilo que se consegue sentir num dado momento. A pele é apenas pele quando só o frémito dos teus dedos me faz sentir como se

U-Turn

O que é que todos nós queremos? Sexo com estrelas de televisão!

quarta-feira, abril 20, 2005

terça-feira, abril 19, 2005

Ouch...

Hoje não me parece possível...

segunda-feira, abril 18, 2005

O bafo cálido dos desejos/Archétipo

Perry Blake é uma criatura! Quem escreve aquelas palavras merece um lugar ao lado direito do Senhor! Seja o senhor quem... Reparem:

"I could kill a hundred times a day
just to find something that I would want to save
don't you know who owns the stars?
controls the sea?
when I stop to catch it all, it passes me.

we are not stars
we're nothing but descendants
of butlers and attendants
we are like cars
rusting in a graveyard with some forgotten saviours

I could host a funeral tonight
lift Her dress and kiss Her while she's still alive
she who kept a swallow in her mouth
just to make it think that it was flying south"

Não me interessa que possa parecer pretensioso. A pretensão é a água que lubrifica os carretos da inspiração. Estão a ver? Nem é difícil. Mas como soa bem, meus senhores, com soa bem e sabe bem pegar nas palavras e usá-las até perderem o seu sentido mais chão e voarem até aquele sítio onde são apenas simulacros. A palavra enquanto simulacro parece-me ser um muito bom ponto de partida para...

"... the fox in winter will sleep 'till spring in cold blue mountains/I don't dream anymore for there is a silence when two rivers meet." Opah...

Nestas efabulações leves como castas nuvens brancas e com tanta sustentação como um castelo em cima das ditas, esta parece-me ser a banda sonora ideal. Tudo nas proporções ideais: a frieza, a distância, a água benta, a pretensão, a árida beleza de um gume de metal, as referências em catadupa, oh, que doce tormento, que coisa! A nostalgia paralisante de um look que se torna inescapável e tão mortalmente bom... E é tão mais fácil não ter que fazer nada.

Nada, nada, nada, nada, nada...

Estou paralisado. Preso. Não tenho vida, apenas uma ameaça. Vã. Pisca-me o olho e sai a sorrir, inalcançável. Todos os começos do mundo já não me chegam.

Quero sentir a pele em chamas com um toque...

... alguém.

Movimento II

Quero uma cultura sem o esforço que a Cultura exige.

sexta-feira, abril 15, 2005

Movimento

Quero uma disciplina sem a disciplina da Disciplina.

quinta-feira, abril 14, 2005

A cidade enquanto espinha do demónio

Estamos os dois estiraçados em frente à grande janela envidraçada, no topo deste Pillip Johnson tão feio como todos os outros. Mais um dia.
Estamos no meio de uma demora que é uma perda de tempo tão grande que é quase uma obra de arte.
Olhamos para a cidade lá em baixo e sonhamos com esquemas para lhes rebentar as pequenas cabeças.
É difícil, sabem, deixar este mundo, desistir de tudo, quando sabemos que até somos iguais a toda a gente.
Mas o importante é perseverar.
Por toda a majestade de uma paisagem citadina.
Por todos os dolorosos dias das nossas vidas cinzentas.
Por todos os sonhos de betão das nossas mentes desocupadas.
Por toda a alegria que passa pelos nossos olhos nublados.
E pelo frio inverno que sangra nos pilares desta Babilónia pintada de fresco.
Somos rapazes de pedra a observar esta terra que se arrasta aos nossos pés.
Os anéis de carne a as torres de aço. As garras do constrangimento.
As grutas fumegantes e os rochedos e a areia sem fim.
É tudo tão difícil, percebem?

quarta-feira, abril 13, 2005

Vergara

Sentado no meu Philip Johnson, a ver passar todos os dias dolorosos das nossas vidas e a pensar que, talvez, a morte possa ser, de facto, uma forma de Arte.

É difícil olhar para o futuro com os olhos marejados de lágrimas...

Um furúnculo francês.

A paisagem da cidade, em pleno e fugaz dourado, que se derrete ante os nossos olhos.

Por vezes, um sorriso é uma manifestação de um incómodo interior que faz escorrer a tinta dos dias.

Afundo-me num mar de

rux (o direito dos mais fortes à ignomínia)

Ocorre-me o pensamento como uma nova moral, um modo de viver a vida e encarar o dia-a-dia a partir de um plano elevado em relação ao resto do mundo, o dos outros, dos mortais, das pessoas básicas. Nós, os iluminados, poderemos olhar para o mundo a partir das nossas poltronas de cabedal inglês do século XVIII, enquanto beberricamos o nosso champagne de flutes de cristal veneziano. Estamos aqui, e podemos. Ponto final. O mundo é belo e é nosso, o nosso pátio privado, a nossa Criação. Amen. As responsabilidades, essas, virão mais tarde. Afinal, Deus é uma criatura muito ocupada, distraída mesmo, lá com as suas coisas. É o que faremos. Cada um por si, e nós com um sorriso mortífero. Dai-lhes corda, que eles se enforcarão...

terça-feira, abril 12, 2005

Nó cego

Derrisório e complacente, arrasto-me sem glória pelas cinzas destes dias pardos...

segunda-feira, abril 11, 2005

Estamos na sarjeta, mas a olhar para as estrelas...

- Consegues sentir o meu coração a bater?
- Como sempre.
- Isso significa que ainda há vida em mim, não é?
- Exactamente.
- Por vezes sinto que não a mereço...
- Porque não?
- Porque não sei o que fazer com ela.
- Tudo o que quiseres.
- Se fosse assim tão simples...
- É assim tão simples, basta quereres.
- Gostaria de poder acreditar nisso.
- E eu gostaria que acreditasses, por mim, por ti, por nós...
- Eu sei...
- Já falamos disto tantas vezes. Não sei o que te possa dizer mais.
- Não há mais nada a dizer.
- Pois não.
- Desculpa.
- Estou aqui contigo, não estou?
- Não me vais facilitar a vida, pois não?
- Não, não vou. Quero que o teu coração se despedace. Quero que chores.
- Nunca irás compreender.
- Não quero compreender.
- Não sou uma má pessoa.
- Não quero saber. Deves-me isso.
- Vai ser muito mau.
- Sabes que sim.Vais acabar comigo.
- Lamento, a sério.
- Isso não quer dizer nada, já usaste essas palavras vezes demais.
- Nunca te fiz promessas.
- Não faças isso, agora não, por favor.
- Ias dando cabo da minha vida.
- Mas não consegui, pois não? Não te preocupes. Até nisso falhei.
- Não quero que te vás embora.
- Eu também não quero ir embora, mas não me deixas outra alternativa.
- Sabes que tudo o que...
- Porque não olhas para mim?
- Porque não é essa a expressão que quero guardar do teu rosto.
- Já é tarde demais para isso, não te parece?
- Abraça-me.

Sines, Setembro 1998

sexta-feira, abril 08, 2005

Oxygen

Recebi-a a meio da noite, uma noite difícil como são todas as noites que se seguem a uma perda. Sorri e chorei. Porque é bom saber que há quem pense em nós e queira o nosso bem, mesmo que não possa ser da maneira que nós gostaríamos. Mas quando há aquela cumplicidade, aquele saber quase instintivo do que dizer e do que fazer perante o outro, em qualquer circunstância, tudo se torna possível. Sei disso. E foi essa constatação que me fez mais forte.
Já aqui disse que é muito bom estar certo sobre alguém. E as provas continuam a chegar.

Amen.

EXOTICA/UTOPIA

É uma daquelas noites com o fim do mundo à distância de umas quantas paragens de autocarro e toda essa história, na festa de aniversário de alguém, em Porto Covo. Há uma rapariga que tem o vestido puxado para cima e as cuecas à volta dos joelhos e que está a simular uma masturbação agressiva com a perna de uma cadeira partida. Um puto louro e bonito, de cabelo curto, está inconsciente num sofá. O resto de nós está a olhar para a lua que, esta noite, está em eclipse e acompanhada pela aparição de um cometa de cujo nome não me recordo.
De momento, a lua está vermelha e tem um aspecto curtido, como se fosse uma bola de bilhar a rolar para dentro de uma bolsa de estrelas. Mas em termos astrológicos e mitológicos, isto significa que, aparentemente, deve estar para acontecer alguma desgraça de proporções bíblicas. Li algures que o rei Herodes morreu depois de um prodígio destes... Em 1974, no Camboja, 16 pessoas foram mortas quando soldados em Phnom Phen dispararam contra o que eles pensaram ser um macaco a comer a lua... E no Japão antigo, o povo costumava deitar-se no chão, com a face virada para o céu, uivando para tentar afastar os supostos efeitos maléficos do eclipse lunar.
Hei, mas nós estamos num mundo pseudo-virtual e alegremente estúpido e supersticioso, não estamos? Século 21, costa do Alentejo, tentamos o nosso melhor ao som de qualquer coisa que já existe há muito tempo. Qual é a novidade? De qualquer modo, a rapariga ruiva está muito bela no seu vestido bondage de Vivienne Westwood, sem o mínimo ar de estar passada e olha para cima, algures. Alguém põe uma música chamada "Little Fluffy Clouds" a tocar. Os The Orb assentam na perfeição naquela atmosfera levemente lunática. Os céus tornaram-se uma estufa e as pessoas não estão muito longe disso.
Enquanto estou a ouvir a música, estou espantado com o que se pode fazer da nossa vida se realmente estivermos dispostos a isso. Penso no que podes estar a fazer neste momento. Provavelmente também estás a olhar para o eclipse, só que de algum lugar perdido no meio de lado nenhum, onde estás a foder alguém que não te interessa um caralho, só porque isso fica bem nas conversas com os amigos. Mesmo depois do casamento. Música ambiente e clubes techno no outro lado do mundo, quem poderia ter previsto uma cena destas há uns anos atrás? E eu a pensar em ti. Ainda e sempre.
Depois de demasiado álcool e substâncias ilegais, alguém me pede para dizer umas palavras sobre o amor da minha vida, ou melhor, sobre alguém que tivesse possuído a minha alma, o tópico de conversa a ser discutido no momento. O primeiro pensamento que se torna carne e vive é o de que a festa acabou, de todas as maneiras que consigo lembrar-me.
O meu amor por aquela besta maravilhosa não perdeu a sua viabilidade, é demasiado idiossincrático e abrangente e infernal para isso. A nossa relação sempre foi um sistema de tortura ligado a um sinal extraterrestre. Não, apenas acontece que o ambiente do qual ela nasceu está tão perto de se tornar um ritual, apenas e só isso, que está em vias de se transformar em algo sem qualquer significado. Uma experiência virtual.
A busca daquele pico último de sentimento que, na realidade, se vai tornando cada vez mais utópico todas as vezes que se inicia, é algo como ir a uma discoteca, despir a personalidade do dia-a-dia, dizer disparates, dançar como um epiléptico e depois relaxar madrugada dentro. É como atingir o nível mais baixo da existência. E ainda ficamos contentes. Pelo menos para mim é assim. O que pode haver a seguir?
Gostaria de poder pensar que tudo isto seria uma função minha que está a ser suavemente levada até à saturação, mas não se trata de nada disso. Amor, paixão, enamoramento, loucura, qualquer que seja a merda que reverbere como um enorme e cada vez maior cérebro pulsante que domina tudo e todos de centro do inferno, como alguém disse, está conceptualmente morta, em termos práticos. Acho eu. Tudo o resto são postais do Dia dos Namorados e compras nos hipermercados aos Domingos.
Quero eu dizer, quantos tipos que pintam como Picasso se conseguem hoje encontrar? Estão a perceber? O amor é uma treta.
Conheço-te há tanto tempo que parece que não tive vida antes disso. Foi quase no fim de 1994, tinha eu 23 anos e ainda acreditava. Naquele dia 13 de Janeiro de 1995 vi-te a olhar para mim, fui falar contigo, embebedaste-te e partiste com o resto da turba. Depois, regressaste, conversámos, fomos consumir fumícios e ficamos juntos toda a noite. Fomos para Sines e levaste-me ao castelo. Subiste à muralha e gritaste "vão todos para o caralho", muito alto. A seguir, com um salto, aterraste à minha frente e beijaste-me, pela primeira vez. Era de noite e fazia frio.
Muito disto é apenas uma névoas fugaz na minha memória, mas tão viva no resto.
Quando me pediram para dizer algumas palavras sobre alguém que me possuiu a alma, disseram que não era necessário fazer uma retrospectiva pura e dura. Ainda bem, porque não me quero lembrar de muita coisa. Já não vale a pena. Em muitos aspectos, toda aquela cena parece ter-se transformado numa espécie de orgia drogada e alucinogénica da qual nós éramos as estrelas, uns verdadeiros alien superstars.
Tornámo-nos A COISA.
Vivemos A COISA.
E A COISA foi boa, pelo menos por uns tempos.
A COISA funcionou, alimentada por um sentimento de pertença e manteve-se unida por um silencioso cimento espiritual. Abriram-se novos horizontes e tudo era bom.
Todas as nossas noites juntos eram como a queda do Muro de Berlim, uma e outra vez, até ao colapso. Havia a sensação de que tudo era possível e as nossas aventuras reflectiam este sentimento de maravilha e deslumbramento.
Então A COISA tornou-se canibal.
Nós os dois sofremos uma espécie de overdose, ficámos loucos, caímos vítimas de tudo, tornámo-nos dependentes do nosso inferno, fomos roubados e maltratados. E a cada novo ano anunciámos um novo Verão do Amor. Doente, não é?

A verdade é sempre muito mais selvagem do que a nossa ficção privada.

quinta-feira, abril 07, 2005

Ho Humm

Um dia de sol, um Bentley descapotável, uma flute de Crystal rosa, um fato branco Valentino. Demasiado álcool, um corpo demasiadamente belo e jovem. Toda a beleza deve morrer. É a lei da vida. O olhar é duro, o sorriso sardónico, a faca afiada. E o sangue, esse...

Machina

Nunca me sinto tão cansado como quando me levanto da cama, todos os dias.

Requiem

O avô materno do senhor Marquês faleceu na segunda-feira, dia 4 de Abril de 2005. Tinha 84 anos.
O senhor Marquês lamenta-lhe a ausência e a falta de uma marca mais profunda na sua vida.

Pace.

segunda-feira, abril 04, 2005

Babilónia pintada de fresco

Uma certa vez, a grande Cadela Nocturna disse-me que estar os amigos era o mesmo que sentir uma sensação de aconchego semelhante a estar num casulo. Parece-me uma descrição apropriada para o que se sente. Ontem estive, de facto, num casulo quente e doce, numa daquelas situações em que, por qualquer razão divina, tudo parece estar no seu lugar. As pessoas, os espíritos, o local, a comida, o ambiente, enfim todos os ingredientes para uma noite retemperadora dos maus fluídos e pensamentos d'antão. Nesta época de coisas frias e impessoais, de relações fugidias e sentimentos de papel, é precioso poder sentir que se faz parte de algo que nos permite estar como somos, com muito menos máscaras do que no resto dos nossos dias. É saber que sim, que podemos ser fúteis, loucos, desiquilibrados, insuportáveis e todos esses estados afins, que não seremos julgados, pois do outro lado da barricada, com um copo de vinho argentino na mão, estão outros que tais, como nós. Por mais improváveis que possamos ser. Nada mais forte do que a improbalidade para unir as pessoas...
As coisas boas da vida são para ser gozadas sem pressas, com um certo estilo, uma certa sobranceria, uma displicência capaz de dar um sentido mais profundo às palavras, aos pensamentos, aos corpos e à sua linguagem. Assim mesmo, é com o cinismo inerente ao poder de ser dono de um segredo, que podemos verdadeiramente sentir que pertencemos a algo maior do que a própria existência do dia-a-dia banal e sem frutos. Os amigos, o álcool, a conversa, os bons locais, o saber dizer mal de tudo e de todos como forma de estabelecer uma ligação ente nós e eles, é um segredo divino, só revelado a alguns, poucos, de entre nós. Foi o que se passou? Não sei, mas é a criatura ruiva, em todo o seu fogo de artifício, a criatura jovem ainda educada e polida, mas já no bom caminho para a perdição. A boa, a nossa, a que deve ser. E é a criatura alva e pequena, grande e forte perante as forças de um infortúnio espúrio e vago, destituido de sentido e propósito. Firmes, orgulhosos, jovens, bem vestidos, bem postos, bem criados. É, comme il faut. Como não podia de ser. Como gostamos. O senhor Marquês sente-se privilegiado por poder desfrutar de tudo isto. E estragado para o mundo, pois tudo o resto parece tão aborrecido, tão desprovido de encanto...

I need to believe in something...

... dark clouds drift away to reveal the sunshine... (Space, Dark Clouds, 1996)

Se, ao menos, as nuvens negras não regressassem...

e.

"... Não me mintam, ouviram? Não me mintam!"

sexta-feira, abril 01, 2005

Demonologia

Matem os vossos ídolos. Matem aqueles de quem gostam. De uma forma ou de outra. Vejam-se livres das vossas famílias. Quebrem todo e qualquer laço com o mundo humano. Sejam monstros. Egoístas. Cruéis. Sem coração. Frios. Frios. Frios. Que se foda Deus e as Igrejas. Todas as religiões organizadas são uma perda de tempo. Marx, afinal, tinha razão. Comunguem com a natureza. Essa é a única religião. Nós e o mundo. O nosso mundo. As coisas que nos fazem felizes. Assim tão simples. Os prazeres e as emoções. Libertem os vossos demónios. Doce e cruel anarquia. Nada mais interessa a não ser a satisfação dos vossos desejos. O trabalho dá dignidade? Mas nem por sombras! A vagabundagem é a verdadeira arte. Ser vagabundo intencionalmente, com fervor. Tal como o grande Peter O'Toole. Dancem até cair. Fiquem loucos e percam todas as noções de Bem e de Mal. Como nas palavras de Madonna: "Aborrecem-me os conceitos de certo e errado". E ela sabe do que fala. O mundo é o vosso parque de diversões privado, aproveitem-no. Sejam jovens, devassos, irresponsáveis. O mundo não está à vossa espera e quando der por vocês já vai ser tarde. Bebam todo o Crystal cor-de-rosa que conseguirem, até vomitarem em cima uns dos outros e das roupas caras que estão a usar. E depois peguem no vosso Jaguar descapotável verde e desfaçam-no contra o novo Porsche do vosso melhor amigo. Façam como o Robbie Williams no vídeo de "Come Undone". Mas até às úlitmas consequências, sem a merda da moralzinha de pacotilha. A moral é a nova inquisição. Façam por a banir. A moral é merda. Sejam amorais. Se tiverem que morrer, façam-no com estilo. Jovens e deslumbrantes. Ouçam música bem alto, sob o efeito de todas as drogas conhecidas. Estejam com quem vos apeteçam. Esqueçam o amor. Dediquem-se à luxúria. Fodam até vos sairem os miolos. E então... comecem tudo outra vez! Até não restar mais nada de vocês e do mundo. Façam como o Bret Easton Ellis. Menos que Zero. Porque que raio não? E então, um dia, não há mais nada para fazer. Será nesse dia que terão atingido o vosso objectivo último: Fazer Tudo. Com ganas. Sem limites. Estarão mais próximos de Deus... Serão o vosso próprio Deus.

E o senhor Marquês, na alto da colina, vestido de branco, sorri, por entre os filtros de um Jeffrey Kimball às ordens de Ridley Scott, com banda sonora de Alexander Balanescu.

"... my work here is done..."

The Horror

Heart beats under. Heart of steel. Paint my face, tell a lie. The boyfriend. Someone's voice. I don't care. Animal boy thing. The world. Babble. As of now, dead. Heart of steel. Which do you prefer, a heart or a soft lotion? Love song. Good as it gets. Can´t believe it's true. It's all relative. Vanilla sky my ass. What are you, these days? Living? Almost? It's half past. Going nowhere fast. Someone. Somewhere. Summertime. I fail to remember. Too long ago. Too far away. Promised you a miracle. Beautiful things are beautiful things. Baby, please... if you have to kill me, do it as if you cared.

Enough.

quinta-feira, março 31, 2005

Parvaneh

Um dia disseste-me: tenho medo do que dizem os teus olhos. Agora sei.

Greenpeace

Sou muito mais que um deus, muito menos que um homem.

Love vs. Hate

It's not hate, it's not hate, it's not hate... it's love.

Ça va de soi

Eu não sou eu: tu não és ele nem ela: eles não são eles: nós...

Palimpsesto

Gostaria de errar pelo mundo, tornando-me imoral como um pajem de Hogarth. Um nómada sem nacionalidade. Na idade que tenho desejaria que todos parecessem crianças a meu lado. Mas apenas em determinadas ocasiões, porque em mim continuaria a residir uma jactância e um entusiasmo que os outros haviam perdido algures na sua adolescência mais desocupada, nos campos de jogos, ou nas salas de aulas. Os meus vícios revelar-se-iam menos na busca do prazer do que no desejo de chocar, por entre um inebriante labirinto de exibições elegantes. O selvagem que os decentes domesticariam continuaria e predominar em mim. E seria cruel, naturalmente, com aquela maneira sádica dos falsos impolutos de se imporem a todas as verdades do mundo. Avançaria de cabeça baixa, agitando os punhos, em pequenos movimentos, contra o mundo dos outros.
Entre dois goles de Crystal cor-de-rosa diria: "A vida? É como engolir um espectro!". E sorriria. O segredo seria só meu.
Algo de vagamente horrível se instalaria dentro de mim e eu pensaria: sou um ser arcaico, sinto-me como se tivesse saído de uma caverna encerrada há séculos. Olharia para o meu reflexo num espelho veneziano, em espiral, e ficaria com a certeza de que o meu rosto havia sido esculpido por um escultor azteca ao tentar fazer um retrato de um qualquer deus falhado e mortal, símbolo de um fim que estava a demorar o seu tempo para se fazer anunciar.
Em frente ao espelho, rodeado pelas sombras de uma decadência sem remissão, saberia: sou um fanático culto, um bárbaro cerimonioso, um lama preso à neve... Almas boas diriam que devia haver uma inquisição de propósito para me queimar.
Nos meus anos dourados seria, talvez, um pouco anafado, mas muito elegante, magnífico, voluptuoso, byroniano, aborrecido, contagiosamente indolente, de maneira nenhuma o género de homem que se possa imaginar facilmente vencido. Teria o ar de quem havia gozado a sua vida, coroado com todas as flores de Sodoma e Gomorra.
Aos outros, apresentar-me-ia com uma impressionante normalidade, naturalmente estudada, mas eficaz. Seria como se me apercebesse da tal aura byroniana e a achasse de mau gosto, tentando anulá-la. Estaria de pé, numa qualquer varanda, apenas uma figura alta e direita, cujo rosto se encontraria mergulhado numa densa sombra quando, finalmente, me voltasse e cumprimentasse as pessoas. Falaria com simplicidade e naturalidade, impressionaria. Quando a luz do entardecer revelasse o meu rosto, por fim, este seria nobre, com um autodomínio que pareceria premeditado: apenas levemente cansado, apenas levemente sardónico, apenas levemente voluptuoso. Pareceria estar no apogeu da vida. Os outros achariam difícil de acreditar que tivesse aquela idade. Só o meu profundo aborrecimento que, por vezes, transpareceria, inevitavelmente, que a máscara seria árdua de usar, trairia essa imagem. Mas, de resto, um cavalheiro perfeito, blasé, sem paixão, desejando o conforto e a tranquilidade, seguindo o sol... um lamento suave até ao fim. E, nessa altura, o meu espírito recordaria o langor da juventude, saciado, pensaria como tinha sido único e sublime, como se tinha perdido depressa e como fora irrecuperável. O entusiasmo, a generosa afectividade, todas as ilusões, o desespero, esses atributos tradicionais da juventude que vão e vêm connosco ao longo da vida, uma parte da própria vida. Sim, mesmo o desespero. Mas o langor, aquele momento de relaxamento dos músculos ainda por gastar, aquele espírito que se isola, prenhe de todo o seu amor-próprio, esse pertencera apenas à juventude e com ela morrera. Sorrindo, pensaria que, talvez nas mansões do Limbo, alguma estirpe de heróis pudesse gozar tal compensação, pela perda dessa visão beatífica. Talvez essa mesma visão pudesse ter alguma vaga afinidade com a mão-cheia das muito pouco elevadas experiências pelas quais passara. Talvez. Seja como for, a certeza de que havia estado muito perto do Céu, em algumas dessas experiências, já não me abandonaria. Seria o palácio encantado que me acolheria.

terça-feira, março 29, 2005

Narciso com pústula

O senhor marquês anda muito estranho.
O senhor marquês está estranhamente feliz.
O senhor marquês não sabe muito bem o que fazer.
O senhor marquês pensa que o mundo à sua volta lhe quer fazer alguma.
O senhor marquês sorri por tudo e por nada.
O senhor marquês teme que a memória dos seus dias acabe por o soterrar para sempre.
O senhor marquês sente que...
Não há nada de mais triste do que sentirmos a memória das nossas vidas como uma névoa cinzenta que nos prende e não nos permite ir a lado algum.
Tem chovido, tenho ficado em casa, observar os meus domínios, a paisagem, as coisas, as pessoas e o resultado tem sido um grande distanciamento entre mim e o resto do mundo. O senhor marquês à janela, acompanhado pelos seus demónios saltitantes e alegres, a pensar: vejo gente morta, sinto gente morta... sei disso porque também não faço parte do mundo dos vivos. Poderia dizer que sou uma alma penada, mas nem isso me alegra. As coisas acontecem tantas vezes que deixam rapidamente de ter piada. Queria uma vida genérica, disse eu algures, mas já não acredito nisso. Gosto quando chove. Gosto de beber quando chove. Gosto de conduzir quando bebo e chove. Fiz isso há pouco tempo. Estou preso a truques rasteiros para me sentir... quê? Não interessa. Vou passar a ser um fantasma que sopra gelidamente na nuca dos vivos. Um acossado com sentimentos, meia criança, meio animal.
O senhor marquês tem fome.
O senhor marquês conduz a rir dos outros mortais.
O senhor marquês goza com tudo o que possa ser sagrado para os outros.
O senhor marquês quer acabar com a decência e com as coisas boas.
O senhor marquês quer ser como o outro senhor marquês mas sabe que seria tão aborrecido.
O senhor marquês recebe mensagens multimédia às 3 da manhã de almas jovens a fumar charros e acha isso o máximo porque é sinal de uma decadência maravilhosa aos 21 anos.
O senhor marquês gosta de pessoas decadentes.
O senhor marquês quer ser uma pessoa decadente.
O senhor marquês não se quer incomodar com essas coisas...
O senhor marquês quer um mundo só para ele. Este já não serve.
O senhor marquês aborrece-se de estar aborrecido...

Para sempre.

Contra mundum.

Sebastian Flyte tornou-se alcoólico por ter vergonha de ser infeliz.

quarta-feira, março 23, 2005

I like that

Quem pensam os Pragas que são?
Quem se julgam eles?
Os Pragas amam o teatro e os Pragas têm ritmo e os Pragas blá, blá, blá... Com certeza.
Os Pragas não facilitam.
Os Pragas vão arranjar muitos ódios de estimação.
Os Pragas chegaram ao Nacional! Meu Deus, mas isto está tudo louco?
Os Pragas nas catacumbas.
Os Pragas na plataforma a profanar os fatos de tantos avatares do nosso teatro ao som da mais impúdica das canções.
The end of days com figurino nas catacumbas do Nacional.
Porque é que isso faz tanto sentido?
Foi rir e arrepiar e pensar: o que é isto? o que é que eles estão a fazer? nada é sagrado? como se atrevem?
Mas, ao mesmo tempo, veio a resposta, clara e sem nuvens: claro! É isso mesmo! Só podia ter sido assim. Naquele local, naquelas circunstâncias, tinha que ser assim.
E os Pragas têm algo de subterrâneo a correr-lhe nas veias, suponho. Quando se chega onde eles chegaram, só voltar às entranhas da terra, ao centro de tudo, ao coração da cena e todos os disparates adjacentes. Sim, o questionar de tudo, como eles pregam, dá estas coisas, de tanto retirar o que já não interessa, chega-se ao ponto em que tudo volta a ser importante.
Os Pragas questionam o teatro sem piedade, pois só voltando a ele poderiam cumprir essa premissa até ao fim. O teatro já não é nada, porque tudo já foi feito, inventado, criado, implodido. Eles sabem, andam a fazer isso há 10 anos. Por isso, ao minimalismo de "Um Mês no Campo" e à fusão crispada e algo desconfortável de "Sobre a Faca, a Mesa", sucede este glorioso maximalismo criativo. Estamos no Nacional, está tudo lá para ser usado, vamos a isso! Com paixão, com gosto, com a faca na liga, a rosa na boca. O teatro é o nosso mundo, vamos a ele, vamos mostrar o que nos dá e o que fazemos com isso.
Estive lá, gostei, senti que aquela gente faz o que quer, como quer, com uma coerência que pode parecer ofensiva a muita gente. Eles divertem-se, partem a louça, apanham os cacos e fazem tudo de novo. Atiram-os à nossa cara e nós agradecemos. Temos falta de mais. Queremos mais. E estamos disponíveis para o que aí vier. E é bom ir ao Nacional sentir tudo isto. Afinal, são as pessoas que fazem a tradição e tornam o sagrado naquilo que ele deve ser: o rasto de quem por lá passa. E como provou a Cláudia Jardim, que ainda continua viva, tudo é relativo. It's all good.

Já agora, quem já tiver visto o filme "The Last Of England", do Derek Jarman, veja e pense de novo, a plataforma a descer, a música, os figurinos. Um tempo sem tempo, uma suspensão absoluta, um fim do mundo. Estarei a sonhar?

Por falar em Jarman, que tal Gregg Araki, Roger Avary, algum Greenaway, os "Anjos e Insectos" do Philip Haas e o "Quarto Homem" do Paul Verhoeven?

E Balanescu. Quartet.

Tentei.

terça-feira, março 22, 2005

Vitríolo

... não sei o que está à minha frente, mas acredito nisso...

sexta-feira, março 18, 2005

A espera é uma forma menor de Arte

Sou uma má pessoa, suponho. Ontem tive a certeza de que as minhas elaborações psico-dramáticas sobre as pessoas resultam. Foi o triunfo, a um tempo assustador e magnífico, de uma imagem que eu tinha criado sobre alguém. Tremi de prazer e triunfo. E assustei-me com o que senti e com as consequências disso. Não há nada mais aterrador do que ter razão sobre determinadas coisas. Por vezes temo que o excesso de oportunidades possa ser fatal para a vida de uma pessoa, em especial se essa pessoa for jovem, bela e disponível para o mundo. Não quero ter razão nisso. Em absoluto. Quero saber o que se vai passar, mas tenho medo. Porque sei o que acontece quando, após muito procurar, se encontra aquela porta no chão que nos permite passar para o outro lado e descobrir uma coisa tão bela quanto terrível: o nosso lugar no mundo. Foi isso. E todas as criaturas belas e jovens e disponíveis acabam por o fazer. O problema é que, depois, não se sabe o que fazer com essa informação e com essa certeza. Olhei de longe, e lá do alto, para aquela silhueta e vi tudo com tanta clareza que gelei. Sei o que se vai passar. Porque quem sente muito, sofre muito e faz todas as asneiras e todas as trapalhadas. Porque se sente, porque é assim que se vive. Quis dizer isso mesmo. Mas não posso. Só Deus. Seja ele quem for. E como o nosso Deus é uma criatura ausente e ocupada, não auguro nada de bom... Seja.

Marcado no corpo jovem o sinal de pertença a um grupo, a uma realidade, a uma esperança. Vou fazer tudo para que isso aconteça. Penso que, de quando em vez, aparece uma alma que vale a pena salvar, acarinhar, tornar nossa e fazê-la voar. Sei fazer isso muito bem. E não quero perder esse gosto, esse prazer solitário, de Deus privado, de moldar esse pequeno tesouro que é um princípio. Todos os princípios do mundo deviam ser tratados como coisas frágeis e belas.

Espero por não sei bem o quê. Realizo-me em boas obras em nome de um qualquer karma que sei não poder cumprir. Mas é o que me resta. E já não é mau. Tenho sido muito elogiado por incutir nos outros todos os princípios que tento destruir em mim. Ironia suprema. Será que ver os outros fazerem o que detesto é mais um passo no caminho para... o quê? Já não quero saber. É a espuma das horas, a poeira dos dias: olá, estou aqui, existo. Não sei mais que isto.

O cabeça no mar vai trazer-me uma compilação dos Imagination. Pois. Prazeres ocultos e pecaminosos dos 80's para consumo solitário. My Own Private Idaho.

Rock'n'roll. Deal with it...

Tiens

...mais l'amour, pauvre petit!

quarta-feira, março 16, 2005

L'ennui

A Mercedes tem um motor Diesel novo, com três turbos. Triturbo. O aborrecimento mata. Voltei a ter o mesmo sonho, pela enésima vez: o Audi A4 azul, a 160 km/h, não consegue parar a tempo e vem bater no meu carro, fazendo-o voar. Não sei o que acontece a seguir porque acordo sempre nesta altura. Toda a minha vida tenho lutado contra o aborrecimento. Não posso deixar de pensar que tenho falhado miseravelmente. Triturbo...

terça-feira, março 15, 2005

A Queda

Sinto o mundo à minha volta estranhamente coberto por uma fina camada de pó avermelhado. Tudo recorda os restos da noite, uma noite entre muitas. Um silêncio sepulcral cai sobre mim. Ainda cheira ao que cheiram as noites como esta. Os despojos estão um pouco por todo o lado. O costume. Sorrisos no meu rosto. Hei-de encher tudo isto com miríades de criaturas maravilhosas, dispostas a tudo, a minha dádiva à sociedade, o meu século vinte e um. Sei que, algures por ali, há corpos em repouso após mais uma épica batalha. Na semi obscuridade daquele tempo sem tempo, sou abençoado com tanta beleza que se torna difícil de suportar. Sinto as pernas tremerem e quase choro. Ali está a realização de toda uma vida. Já não existe o mundo lá fora, mas apenas o meu mundo, o meu circulo infernal de beleza e sacrifício. Acho que estou irremediavelmente apaixonado, mas com uma paixão que não puxa ao sentimental. Posso ser acusado de muita coisa, mas não de ser sentimental. O quadro que ali se me apresenta unta o meu desejo de espectador, do grande voyeur que habita aqui dentro, porque ali está a carne de que os meus sonhos tornados reais se compõem. Os rostos têm expressões rendidas, dispostas a tudo, com os olhos cerrados e os corpos pousados uns nos outros, numa cena com algo de pornográfico, misturado com uma certa companhia amorosa, um certo consolo fascinado, uma indescritível submissão. As coisas são tal como são, por isso este quadro que está aqui à minha frente deve ser verdadeiro: a nudez, a obscuridade, os meus pensamentos, as cores diferentes das peles, a cortina esverdeada, as respirações em uníssono. Sou o príncipe dos perversos e o reles proxeneta, sendo o príncipe e o proxeneta o mesmo ser. Um disfarça-se do outro, para melhor conhecer as forças e as fraquezas mútuas, para desfrutar da realidade, sem qualquer tipo de mediação, do poder, do título, do nome. É possível que, por trás do secretismo e da excentricidade fatal e boémia desta minha existência, esteja um desejo quase freudiano de me evadir do meu nome, de matar a minha identidade terrena, que passa sem muita glória por esta vida, e de acabar com o mundo que me originou, esse mundo tremendo de regras, proibições e superstições. E que originou esta reivenção cheia de sexo, de dinheiro, de falta de respeito pelas coisas ditas boas e recentes da vida. Sexo, dinheiro, poder, a santíssima trindade da perdição humana. A minha realidade.
Ali à minha frente, está o que sempre procurei, o corpo humano deste início de século vinte e um, fruto da segunda metade do século vinte, depois das guerras e da invenção da angústia moderna, depois das máquinas e da invenção do futuro, depois da morte dos deuses e da morte do amor. É isto. Exactamente isto. Corpos sobre os quais a literatura poderia contar fábulas sem fim, corpos que atraem as palavras, as divagações, as histórias, se acharmos que a essência da literatura ainda pode ser essa, uma história contada através de palavras. As histórias que eu crio sobre aqueles (e muitos outros) corpos enigmáticos, com a sua carne branca raiada de rosa e bronze, os órgãos genitais de frente para o mundo, os cabelos desalinhados e suados, as linhas de expressão por vezes desencantadas, mas sempre belas, a ausência essencial dos medos do costume: a morte, a vergonha, a culpa, os outros. São belíssimos estes corpos que não têm medo do seu poder, do seu espaço, do que podem ser capazes, e que nos atiram à cara, em puro desafio e com uma sobranceria despudorada, essa coragem da realidade. A mesma sobranceria fechada em desdém que eu faço passar como imagem de marca, como desafio para o resto do mundo. Os corpos, como as plantas e as folhas verdes dos quadros de Lucian Freud, com os seus interiores desmanchados, os seus lençóis amachucados que ainda cheiram a sexo, as suas caras adormecidas, e as suas formas voluptuosas, são tratados sobre uma humanidade mergulhada numa perfeição muito minha. Sem filtros, sem que a solidez dos desejos ceda à liquefacção das obrigações. Em nome da estética. Num mundo saturado de beleza a todo o custo, através de cirurgias, e dietas, por causa de modas e da moda, de ideais impostos, de ginásios e cosméticos, de revistas ilustradas e homens e mulheres que se mexem como corpos de papel e reflexos de ecrã, aqueles corpos adormecidos são a evidência da realidade dos meus sonhos. Olho para eles e sei que, no universo inteiro, e não importa o que diz essa gente da Física Quântica e da Ciência, da Astronomia e da Matemática, não existem outros corpos iguais àqueles. Eles são, na sua nudez e no seu pecado original, irrepetíveis. Únicos. E são únicos não por causa de uma qualidade intrínseca, não por causa da mão algo crispada, da expressão concentrada, da brancura da pele, ou da ternura da boca, ou das suas posições dentro do quarto e da cama, não por causa da expressão sem expressão do meu rosto enquanto os observo, não por causa das desordens amorosas de Sábado à noite e das ressacas e olheiras de Domingo de manhã. São únicos porque me atrevi a ser único. Porque deixei os meus demónios à solta, contra ventos e tempestades. E, ou muito me engano, ou não hão-de existir demónios tão livres como os meus. Para o melhor e para o pior. São eles que me tornam universalmente irrepetível. Filho de Deus, portanto. Suprema ironia...

Feliz aniversário, Marti. É por causa de almas como a tua que vale a pena andarmos por cá. Um abraço grande.

sexta-feira, março 11, 2005

O Prazer da nossa Vergonha Privada

O que seria de nós se não pudessemos criar o nosso próprio mundo, a nossa fantasia privada, o nosso pequeno inferno? Julgo que a nossa imaginação pode ser o pior dos demónios mas, mesmo assim, não consigo deixar de, por vezes, deixar a loucura ir até ao limite, para poder ver o que se vai passando cá dentro. Por mim, tenho uma certeza, este tempo não é o meu. O que não quer dizer muito, uma vez que também não sei que tempo seria esse. Sinto-me, por vezes, atolado um turbilhão de imagens que me submerge e me deixa sem ar, tonto de tanta informação, de tanto estar em tantos lugares ao mesmo tempo. Um tempo sem tempo. Tenho andado a rever a série "Brideshead Revisited" e não posso deixar de pensar que queria ser Charles Ryder nos anos 20, porque tudo aquilo me titila profundamente os mais secretos recantos do meu ser. A pronúncia, as roupas, as tradições, as casas, o spleen e tudo o mais. Até a música de Geoffrey Burgon. Rodriguinhos e tudo. Penso: era isto. Mas não, não era isto. Era mais. Muito mais. Todos os tempos do mundo num só momento. Um filme de Derek Jarman. Por aí. Música de Michael Nyman. As cores de Greenaway. Um suspensão absoluta, como se a vida fosse um fio tão fino que se tornasse inivisível. Insustentável. Mas essa seria a grande piada. E seria tudo feito com grande estilo, naturalmente. Disso não abdico. E aí começa o problema. O estilo é complicado, porque é uma imensidão. Jarman parece-me adequado por isso. Mas não chega. Preciso de Porsches descapotáveis e Jaguars verdes e Bentleys prateados ao pôr-do-sol na Califórnia, com filtros e mais filtros, como num filme do Tony Scott ou do Ridley Scott. E um guarda-roupa chei de marcas e acessórios ridiculamente caros. E muito champanhe côr-de-rosa e muita droga. E sexo aborrecido e distante, entre um mar de corpos perfeitos à deriva: uma mar azul cheio de torsos ideais a flutuarem sem rumo... Yeah, é uma boa imagem. Mas ainda não chega. Falta o resto, a relativização. A relativização de tudo, dos sentimentos, das regras, das condutas, das obrigações para connosco e para com os outros. Nada importaria. Nada até às últimas consequências, até matar e morrer, torturar e humilhar, chegar até Deus pela violência indolente de uma vida reduzida ao look total. Somos aquilos que queremos parecer. O mais interessante seria calcular as vítimas da situação, ver quem conseguiria ir até ao fim. Um espectáculo divertido e surpreendente, tenho a certeza. Last one standing. Vale tudo. Tenho pena que assim não seja. Fico apenas com os meus filmes. Privados. Envergonhados. Nas minhas aulas tento incutir aos miúdos, pelo menos a alguns, algo destas tiradas. Pode ser que fique alguma coisa. O futuro o dirá.

"Lift me up" de Moby é a melhor canção que os Depeche Mode nunca fizeram. Amen.

"In my dreams I was drowning my sorrows, but my sorrows they learned how to swim..."
U2, "Until the End of the World", "Achtung Baby", 1991.

quarta-feira, março 09, 2005

Teresa

Disse Sta. Teresa d'Ávila: "Muitas mais lágrimas foram derramadas devido a preces atendidas, do que a preces que não o foram..." You said it, girl!

Prece

Oh, meu Deus, torna-me bom, mas não já...

terça-feira, março 08, 2005

II

Tenho andado a pensar o que faria se tivesse 50 biliões de dólares e estou prestes a chegar à conclusão de que não tenho imaginação nenhuma. Seria um bilionário muito baço. E o mundo não precisa de mais dessa espécie. Não sou capaz de passar dos carros, dos palácios barrocos, dos iates, dos aviões paticulares e de uma ou outra ilha nas Caraíbas/Grécia/Pacífico. Nem uma ideia original. Apenas um esboço: elevar-me a mecenas dos Pragas. Já seria bom. Um raio de luz numa monotonia dourada.

Mais um trauma desta cabeça muito vesga: não hei-de morrer sem conhecer uma mão-cheia de actores porno. Nem sei bem porquê, mas sinto que tenho que o fazer. Gostaria de conseguir perceber o que leva um de nós, um belo dia, a fazer um filme porno. O dinheiro, dir-me-iam, mas continuo a pensar que deve haver mais qualquer coisa. Estes pensamentos ocorrem-me após ter visto excertos do filme "Hot boyz, cool men" produzido pelo Lars Von Trier. Dogma porno. Será que a pornografia pode ser arte? Aquilo que nós filmamos nos nossos quartos, com as nossas câmaras digitais será arte? Penso que sou um rematadissimo voyeur, afinal, Deus, ele próprio, está lá em cima a olhar para nós o tempo todo. Ora, se nós somos feitos à Sua imagem, também gostamos de fazer o mesmo.

Portugal é um País seco. Nem o Sócrates nos alegra. Maldita saudade e tudo o resto que nos mantém agrilhoados a uma nostalgia draconiana. Mil anos de catolicismo e estamos neste ponto...

Os Chemical Brothers têm um álbum novo, chamado "Push the Button", que me agrada. São os sons de sempre para o novo ano. Mal o menos.

Aqui há uns tempos, um amigo meu de 21 anos disse-me que não sabe o que se anda a passar com ele: é uma espécie de imã, ninguém o larga, homens, mulheres e tudo no meio. Isto sem contar com as duas namoradas/amigas especiais... Vida dura, portanto. E ainda a semana passada esteve em Paris com uma delas, beijos apaixonados no cimo da Torre Eiffel e tudo. Agora imaginem a cena: no meio de uma discoteca, luzes e música a bombar, duas meninas, primas direitas, aproximam-se, uma por trás, outra pela frente, levantam-lhe a blusa e deixam a marca das respectivas unhas pintadas de vermelho no peito e nas costas. Fantástico, não é? E viva Ferreira do Alentejo!

Tenho a idade de Cristo quando morreu pelos nossos pecados: 33 anos. Não sei o que isso pode significar...

Out.

Jogo Cósmico

Benassi Bros., Pumphoniq. Assim mesmo. Apenas barulho e todos os clichés de uma música de dança em piloto automático para consumo drogado em Ibiza. Para esquecer rapidamente. Como proposta, não é muito, admita-se. Pois. Então, porque é que não consigo parar de ouvir o raio do CD? Não há nada melhor do que aquele thump-thump-thump-thump-thump contínuo para me fazer sentir poderoso de manhã, a caminho do trabalho. Será normal? Acho que isto faz de mim uma criatura com uma cabecita muito rebentada. Às 8 da manhã, em plena estrada nacional 120 a abanar furiosamente a cabeça e a sentir-me qual personagem do filme The Rules Of Attraction. E vocês até sabem qual delas. Adiante. Preciso de estímulos, quaisquer que sejam, para me sentir um poucochinho vivo. Nem que seja durante aqueles 15 minutos que dura a viagem. Não adianta muito,naturalmente, mas já é qualquer coisa. Já não era suposto ter idade para fazer/sentir este tipo de coisas, cenas destas é o que fazem os meus alunos, mas eles têm 18 anos. Isto de ter a idade de Cristo tem que se lhe diga. Mas, ao menos, não sou o único. Pobre compensação. Não pode haver felicidade por comparação.

Gravidade Impiedosa

Estamos condenados a viver num país triste? Faz sol e mesmo assim as perspectivas de um pouco de felicidade são poucas e pobres. Chego a pensar que gostaria de viver na Califórnia. Mas não. Entre sorrisos e um sentido de humor derrisório e autofágico cá vamos andando. Ao menos a piada à nossa custa ninguém nos tira. Pobretes e alegretes, como dizia o outro. A felicidade nunca pode ser vivida em termos comparativos, eu sei, mas já nem as desgraças dos outros nos alegram.
Uma história significativa: um lavrador português tem um burro. O burro morre e o que pede ele a Deus? Que os burros dos vizinhos morram também...

Estou a ouvir os Keane enquanto preparo uma aula para um grupo de adolescentes aborrecidos que não querem saber de nada do que eu tenho para lhes dizer e me toleram porque não podem levar mais faltas. A vida é uma grande, enorme pescadinha de rabo na boca. Quem me dera ter um Bentley Arnage T prateado e ir por essa estrada fora até me aborrecer. Yeah! California style. Será que seria mais feliz? Duvido.

This is the last time...

As perspectivas de vida para um (qualquer) futuro são cada vez mais encolhidas...

Quem me dera escrever um livro só com títulos de capítulos. Maravilhosos, a valer por si próprios, sem necessidade de mais nada. Porque é que temos que preencher todos os espaços de tudo com alguma coisa?

Adoraria uma vida genérica.

Deus morreu? Não quer dizer nada, Nietzsche também.

bu

Alguém me disse que a amizade é como um porco: tudo se aproveita.

Sinto-me morno, imerso numa lassidão sem fim à vista. Será porque estou a ouvir a banda sonora do "Leaving Las Vegas"? Ou será porque faz sol em Março? Não sei o que fazer comigo. Li algures que não acontecem milagres aos 18 anos, nem aos 20, nem aos 30... Bolas, então quando...? E se acontecerem, o que farei com eles? Os humildes irão herdar a Terra. Pois eu acho que os humildes não a querem para nada. Eu sei que não. Raios partam.

Não gosto de rock, é música de velhos.

A loucura é uma coisa branda, que se vai instalando docemente.
Preocupo-me.

Lie to me, but do it with sincerity...

segunda-feira, março 07, 2005

1930

A década de 30 do século XX é fabulosa. O look dos 30's é qualquer coisa. E não há nada tão maravilhoso como a década de 30 britânica. Semprei considerei que havia algo de fantasmático entre o glamour daqueles anos e a emergência daquele mal absoluto que iria culminar com a Grande Guerra. Um mal produzido por um dos países mais cultos do mundo. É, a cultura não evita nada. De qualquer modo, tudo isto aparece a propósito do filme "Being Julia". Não que seja um grande filme, nem é isso que está em questão, o que me agradou foi o seu poder evocativo sobre os anos 30 ingleses. O academismo sempre casou muito bem com a snobbery inerente a uma certa espécie de casta anglo-saxónica que esteve no seu pico nessa altura. Li algures que a civilização britânica se extinguiria à míngua de afectos verdadeiros. Seja. Mas fazem-no como ninguém. A presença de Jeremy Irons no elenco trouxe-me à memória outro avatar da "British Quality", seja isso o que for: a série "Brideshead Revisited", que será sempre um símbolo de britishness até ao fim bárbaro dos tempos. Mesmo tendo em conta que, não fora a voz de Jeremy Irons, tudo aquilo seria uma estucha insuportável. Mas, adiante. O academismo funciona como o complemento perfeito para este look. Aí residem os limites da questão. O academismo é aborrecido. E o aborrecimento é fatal. Ninguém lhe sobrevive. Por isso é que sempre me fascinou o conceito de pegar no embrulho académico do cinema e fazê-lo explodir em todas as direcções, mas sempre sem perder o brilho, a reserva, a distância, o spleen do cavalheiro a observar o mundo por entre a névoa da margem oposta. Imaginem o James Ivory a filmar como o Tarantino. Por aí. O "Maurice" via Tarantino/Avary, com passagem por Gregg Araki. Era como juntar num mesmo ramalhete Cronenberg, Lynch, Fincher, Visconti, Frears e Pasolini. O que poderia sair disso? Enquanto estava a ver o filme não parava de pensar: Rebentem com essa merda toda...". E depois, foi um partir de coração ver aquele pequeno Tom Sturridge a fazer de filho de Ms. Bening, com aquela expressão neutra, fria, aborrecida, britânica. Aquela criança merece um monumento e um grande realizador, num daqueles papéis para ficar para sempre. Anos 30, casas de campo, Bentleys descapotáveis, fatos de tweed, morangos com champanhe e tudo o mais. E muita ambiguidade à mistura, sexual, moral, social e... e... e.... Enfim!

Ontem estive a ouvir Bowie, às duas da manhã, a caminho de casa. Curiosamente, ou talvez não, o que ouvi foi o Bowie dos anos 80, quando a musa começou a falhar. Gosto da decadência das estrelas. Má música de um génio. O que pode haver de melhor? Mesmo assim, amo profundamente o "Loving the Alien" e a versão dos Pet Shop Boys para "Hallo Spaceboy". A mistura parece-me adequada.

Leitura de dinamite: "Quarteto" de Heiner Müller. Mal posso esperar por ver aquelas palavras em palco. Apetece dizê-las, só porque sim. Espero que aquelas duas almas se deixem possuir. Para nosso (e deles, claro) deleite...

sexta-feira, março 04, 2005

Danse Macabre

Não sei porquê este título. Apeteceu-me. Será por causa do disco dos The Faint? Mas é um bom começo. Além disso eles vivem naquele limbo em que os anos 80 ainda estão presentes mas já vistos de uma perspectiva longínqua, filtrada onde o que interessa é já apenas o look... o que quando se fala dos 80's é preocupante. Acho que o meu problema é exactamente esse: por vezes é-me difícil distinguir a realidade destes anos trsites em que vivemos. E nem sei bem porquê, uma vez que já cheguei aos 30 anos e já consegui aquele clique essencial para a nossa felicidade enquanto trintões: já sei o que não quero da vida. Não é mau. Mas nada poderá chegar aos 80's e aquela época louca de excessos e de descobertas descontroladas. Sinto uma nostalgia desmesurada, quase paralisante. Talvez por comodidade.

No outro dia, no Cup&Cino do Saldanha, no reyno da Betolândia lisboeta, vi, com gozo e saudade o Penetrador Gótico a fingir um espasmo de mau gosto e nojo e cair redondo no chão, ante os olhares de todas aquelas criaturas bem vestidas e bem postas. Era a noite dos Óscares, pois então e o PG estava em overacting mode. Diverti-me. Porque ele tem 23 anos e eu já nem me lembro de 1994. Entre a breve loucura de um grupo de amigos entregues a um estupor de piadas privadas e coisas muito nossas, não pude deixar de concluir que o mundo produz algumas almas maravilhosas. Por vezes, até custa a imaginar o que o futuro trará. Veremos.

O Moby tem um disco novo. Hotel. O single chama-se "Lift me Up" e já roda por aí. Gosto. Mais compras: "Nightbird" dos Erasure. Ainda. Lá estamos nos 80's outra vez. Apesar do sorriso, a frescura já lá vai. Mas o "Breathe" não é mau.

As Brandas Hélices voltaram...